O Cliente Como Espelho do Terapeuta Holístico
Contratransferência - Arte Digital: Henrique Vieira Filho
É de suma importãncia para o Terapeuta Holístico compreender o fenômeno da transferência / contratransferência.
Conforme as técnicas adotadas pelo profissional (especialmente, a terapia corporal, a terapia tântrica e o trabalho com dependentes químicos), as consequências podem ser ainda mais complexas.
Transferência é a vivência de fortes sentimentos do Cliente deslocados para o profissional, no relacionamento terapêutico. São elementos reprimidos, muitas vezes, infantis, que ganham nova expressão no espaço emocional, criado pelo encontro "Profissional - Cliente", sem que este tenha consciência do fenômeno em questão.
Assim sendo, sobre o Terapeuta, o Cliente “projeta” muitas figuras de seu mundo interno (reprimido e inconsciente) e cada vez que se refere a pessoas de seu passado ou do seu presente, pode estar também falando também do Terapeuta, que nesse momento, por diversos motivos, aparentemente se transforma nessa pessoa: ora, aparenta ser ameaçador, ora objeto de amor, tais como pai ou mãe, ou qualquer outro ser significativo da sua vida com as características do que dela foi registrado no inconsciente.
Conjuntamente ou após superadas as resistências iniciais do Cliente (exemplos: será que isto vai me ajudar?; é só falando que vou conseguir resolver meus problemas?; não será que ele ou ela é muito jovem (ou muito velho) para me entender?) aí, sim, começa o processo transferencial e, geralmente, o analisando vê seu analista já como um pai (ora severo, ora indulgente, ora omisso), ou como uma mãe com suas (ora protetora, ora severa , ora negligente...).
O Cliente, ao projetar no Terapeuta tais personagens de sua história, vive esses momentos com intensa realidade, se irrita ou busca mais carinho e proteção.
Numa direção paralela, temos os sentimentos despertados no profissional pelo Cliente, que Freud denominouCONTRATRANSFERÊNCIA.
O Terapeuta é um ser humano, com seus próprios problemas, conflitos e caraterísticas de personalidade.
Cada um de nós tem sua própria história, seus conflitos infantis, e sua conduta (mais ou menos também conflitiva ) e sua forma particular de interpretação, ou seja, como todo ser humano, igualmente vulnerável, sensível, vaidoso, ambicioso, invejoso, que ama e odeia, que ainda que capacitado para sua prática terapêutica, também sente, segundo as circunstâncias, carinho, afeto, rejeição, tédio, frente ao que seu Cliente fala, relata, apresenta, projeta nele/nela (transferência), e se irrita, fica entediado, sente empatia e segundo o material da temática tratada, se angustia e sofre.
O Profissional, é claro, tem obrigação técnica e ética de estar treinado para tudo isso, porém não poucas vezes tem que pensar e repensar numa interpretação, talvez produto de seus próprios conflitos e personalidade, ou procurar supervisar esse caso ou situação.
Isto é a Contratransferência, importante elemento do tratamento, que quando não bem conhecido ou ignorado, pode levar a graves erros terapêuticos. Também quando bem interpretado, pode se tornar um valioso instrumento para compreender melhor o que está acontecendo numa situação ou em um tratamento.
Devemos lembrar que assim como existem transferências resistenciais, amor de transferência, idealização do profissional e outras nuances, estas são próprias deste tipo de tratamento, e também existem nos Terapeutas, que tem o recurso de se corrigir procurando ajuda de seus colegas, supervisão e até uma outra análise a mais.
Há tanto a projeção "positiva" (amor, carinho...), quanto "negativa" (ódio, raiva...) e faz parte do processo. Cabe ao Profissional ter consciência disso e perceber, por exemplo, que um(a) cliente apaixonado(a) por quem lhe atende é tão somente uma transferência e não um sentimento duradouro; o mesmo se dá na fase do cliente "odiar" seu analista, momento em que o Terapeuta Holístico terá que re-experimentar suas dores mais profundas, ligadas à rejeição sentida quanto criança.
É fundamental para o Terapeuta Holístico compreender o fenômeno da transferência / contratransferência, pois ocorrerão independente de quais técnicas sejam adotadas nos atendimentos.
Outrossim, em algumas vertentes terapêuticas, as consequências podem ser ainda mais complexas, como é o caso da terapia corporal, da terapia tântrica e do trabalho com dependentes químicos.
Constatou-se um risco maior de complicações decorrentes do fenômeno transferência/contratransferência quando se trabalha com técnicas que envolvem o contato físico direto, bem como aquelas linhas terapêuticas focadas no problema com drogas, em especial, quanto o profissional passou pela mesma situação de vida.
Por sua forte corrente teórica psicanalítica, as técnicas corporais das linhas reichianas e neo-reichianas, tais como a bionergética, estudam a transferência / contratransferência, e, ainda que mais suscetíveis a este fenômeno (em comparaçao à Psicanálise “clássica”...), tradicionalmente saem-se bem nesse processo.
O mesmo não ocorre com os Terapeutas que atuam com manobras corporais de tradições seculares, tais como shiatsu, tuina, anma, seitai, sparsha, dentre outras, lamentavelmente, não costumam ter em sua pauta de estudos, sequer conhecimentos rudimentares de Psicoterapia, ficando sujeitos aos “apaixonamentos” e “ódios” transferencias, já que desconhecem a teoria e, consequentemente, não os identificam, nem desenvolvem defesas, e, menos ainda, conseguem extrair um uso terapêutico destas ocorrências.
O SINTE - Sindicato dos Terapeutas vem detectando um aumento de cursos para "terapeutas em dependência química" realizados em entidades religiosas e que ensinam de forma totalmente inadequada às leis brasileiras e igualmente deixam de incluir o estudo do Aconselhamento e Psicoterapia. Comumente, estes profissionais tem sua origem justamente na superação pessoal de terem enfrentado a dependência química e, ao focarem seu público alvo justamente nos drogaditos, estão perante seus “fantasmas” interiores em tempo integral. Em tese, estão mais aptos do que qualquer outro profissional a compreender e vincular-se com o Cliente drogadito; por outro lado, vivenciam grande sofrimento ao contratransferir, por exemplo, perante cada “recaída” da pessoa atendida, além de tender a “nublar” a percepção da história de vida do Cliente, projetando a sua própria. Ainda assim, apesar de todos os inconvenientes acima descritos, grupos como o N.A. Narcóticos Anônimos são os que obtém melhores resultados terapêuticos (do ponto de vista da sociedade...) nesta pauta.
Outro fenômeno recente é o aumento de profissionais que se auto-identificam como Terapeutas Tântricos. Tradicionalmente, o ensino e a prática tântrica era destinada a casais e, ainda que terapêutica, não era considerada uma terapia em si. Atualmente, existir um casal deixou de ser pré-requisito, passando um ou mais profissionais a somar os papéis de orientador e de parceiro no contato físico, em graus menores e maiores de intimidade, via de regra, sem incluir o coito em si.
Ainda que sem fundamento teórico psicanalítico, os que realmente estudaram os fundamentos da Terapia Tradicional Indiana (Ayuervedica) possuem uma versão “energética” da teoria da transferência/contratransferência, estando cientes da inevitável troca que ocorre entre Cliente e Terapeuta, especialmente ao mobilizarem a libido (energia kundalini) e, tanto desenvolvem “defesas” dessa influenciação, como igualmente possuem técnicas capazes de aplicar terapeuticamente a energia, em prol do equilíbrio e autoconhecimento.
Lamentavelmente, a nova geração de profissionais desta linha não foi preparada com tais conhecimentos milenares e, menos ainda, tiveram um embasamento em Psicoterapia. Perante este perfil, constata-se uma Clientela extremamente “flutuante”, que não parece criar um vínculo terapêutico duradouro, ao mesmo tempo em que profissionais abruptamente abandonam esta linha de atendimento, por não ter condições emocionais / energéticas de lidar com as inevitáveis (e, para a maioria, sequer estudadas...) transferências / contratransferências.
O que se constata na sociedade é um crescente número de indivíduos muito bem intencionados, ansiosos em atender terapeuticamente, mas que são lançados prematuramente no mercado de trabalho, privados de conhecimentos essenciais.
Os cursos tem a obrigação de incluir em suas grades curriculares os embasamentos da Psicoterapia, visto que o Aconselhamento é parte integrante da Terapia Holística e conhecer os fundamentos da Psicanálise, tais como a resistência e os fenômenos transferenciais, mais do que enriquecer a Terapia Holística, é essencial para o bem estar tanto dos Clientes, quanto dos Profissionais.
A melhor forma de preservar a integridade tanto de quem atende, quanto da pessoa atendida, é o profissional manter-se em constante reciclagem de aprendizado e em contínua terapia e supervisão.
O SINTE - SINDICATO DOS TERAPEUTAS deve exercer seu papel de gerenciador do conhecimento coletivo e disponibilizar a todos os colegas a oportunidade de aperfeiçoamento profissional, para o bem tanto dos Terapeutas Holísticos, quanto de seus Clientes.
Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas naCEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.
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Texto original de: http://www.sinte.com.br/revistaterapiaholistica/psicoterapia/psicanalise/340-contratransferencia#ixzz2Bv9kCLjH
Direitos Autorais: SINTE - SINDICATO DOS TERAPEUTAS

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